Diário da Uy / Quarta literária

Das cartas que não escrevi

aspasNo meio da tensão e da corrida que é sempre esta cidade, foi qualquer coisa como um sopro de ar fresco, um gole dágua, qualquer coisa assim. Não é saudade, porque para mim a vida é dinâmica e nunca lamento o que se perdeu – mas é sem dúvida uma sensação muito clara de que a vida escorre talvez rápida demais e, a cada momento, tudo se perde.

Nunca falamos, praticamente, nunca olhamos. Ficou só aquela vibração de silêncio, muito forte. Numa cidadezinha perdida, dois malditos que se reconhecem nem que seja necessário sequer falar sobre isso. Uma cumplicidade muda, e tão secreta que, penso, talvez você nunca tenha percebido.

Na minha memória – já tão congestionada – e no meu coração – tão cheio de marcas e poços – você ocupa um dos lugares mais bonitos. O mesmo que ocupa aquele branco do Quarto RC, no fim da rua. Ou os circos que acampavam na frente da casa de Dona Ernesta. Ou o campinho na frente de tua casa, onde eu deitava olhando as nuvens ou jogava futebol (pessimamente).
Neste momento, estou todo arrepiado e com muita vontade de chorar. É como se ouvisse outra vez, escondido em meu quarto,os discos de música que você ouvia muito alto. Era algo muito vibrante. Tudo isso me toma agora de novo e é tão mágico que quero agradecer a você a lembrança – deus, tão remota e ao mesmo tempo tão dilaceradamente viva.

Receba todo o meu carinho e as minhas melhores vibrações.

Seu amigo

Caio Fernando Abreu

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